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Um Boeing 737 caindo todo dia

É bem provável que, neste ano, 50.000 brasileiros sejam assassinados em crimes premeditados. Fazendo as contas, se caísse um Boeing 737 por dia, todo dia, o número de mortos seria o mesmo. Um especialista em segurança pública descobriu um jeito de passar essa informação tão absurda de modo que as pessoas a entendam

Reportagem: Mariana Osone

Logo cedo, um sujeito abre o jornal e vê a manchete: caiu um Boeing 737 e morreram 137 brasileiros. Na manhã seguinte, a mesma coisa: caiu outro Boeing 737 e morreram 137 brasileiros. E assim por diante todo dia, o ano inteiro.

Vladimir Dietrichkeit, especialista em segurança pública, acha difícil ajudar o leigo a visualizar as informações estatísticas sobre homicídios no Brasil. Ele queria achar um jeito de dizer que, em 2015, provavelmente 50.000 brasileiros vão morrer assassinados — de um jeito que qualquer pessoa pudesse entender, e não apenas com o intelecto, mas com as emoções também. “Na verdade, esse número está crescendo, mas eu garanto no mínimo 50.000 assassinatos.”

Para explicar um número desses, Vladimir achou a comparação com o Boeing. “É isso mesmo: em média, um Boeing por dia, todo dia.” Vladimir chegou a estudar publicidade na faculdade, mas não concluiu o curso; assimilou, contudo, a ideia de que deve ajudar o interlocutor a compreender a importância de um número.

“Hoje, ao longo do dia, 137 mães devem chorar a perda de um de seus filhos.”

Vladimir diz que homicídio é um bom assunto numa conversa sobre matemática e estatística, pois é bem previsível. Se no ano passado houve 50.000 assassinatos, neste haverá mais ou menos 50.000 assassinatos também; essa é uma característica da sociedade que não muda significativamente de um ano para outro. Além disso, o número de assassinatos é como uma doença contagiosa: se ocorrem muitos num lugar, ocorrem mais outros nos arredores desse lugar. Em suas pesquisas, Vladimir encontrou duas organizações que encaram a violência urbana como uma doença: a Cure Violence, nos Estados Unidos, e a Fica Vivo!, em Minas Gerais. No modelo da Cure Violence, a equipe sugere uma abordagem com três frentes:

• Interromper a transmissão da doença.

• Identificar e mudar o pensamento de possíveis transmissores.

• Mudar as normas dos grupos sociais nos quais a doença prepondera.

Já o pessoal do Fica Vivo! procura intervir nos locais onde o índice de assassinatos é alto. Promove atividades especiais para jovens entre 12 e 24 anos, com o objetivo de afastá-los da violência urbana. Contudo, o cidadão só pode exigir das autoridades que gastem o dinheiro dos impostos com atividades semelhantes se estiver a par dos números e de seu significado. Por isso, Vladimir escreveu um artigo no qual propõe uma forma mais concreta de apresentar as estatísticas: com a dor de perder um familiar. Todo mundo entende isso, com a possível exceção de psicopatas.

Risco de vida

Para aprender mais sobre o assunto segurança pública, Vladimir conversa com outros especialistas, ou se corresponde com eles, e lê tudo o que lhe indicam. “Tudo o que sei devo a eles.” Um desses contatos é Luiz Eduardo Soares, antropólogo do Rio de Janeiro. No fim de 2013, depois de uma série de conversas com Luiz, Vladimir teve a ideia de usar a taxa de assassinatos para estimar quantos familiares um brasileiro deve perder ao longo da vida.

Vladimir se formou em engenharia elétrica, e sabe programar computadores. “Hoje em dia, existe essa vantagem: você não precisa ser um excelente matemático; basta que seja um equacionador razoável. Aí o computador aplica a mesma equação a milhões de registros.”

Em geral, especialistas em população usam os números assim: a cada grupo de 100.000 pessoas, x pessoas têm certa característica. Desse modo, fica mais fácil comparar os dados de lugares com número distinto de habitantes. Em Alagoas, por exemplo, há 64 assassinatos por 100.000 habitantes; no Brasil, 25 por 100.000 habitantes.

Foto: Carlos Eduardo Vaz

Para equacionar o problema, Vladimir chamou de t a taxa anual de homicídio doloso — isto é, quando o assassino tem a intenção de matar. Assim, 25 homicídios por 100.000 habitantes vira t = 25/100.000. O estudante pode chamar a probabilidade de uma pessoa não ser assassinada de P(NA), isto é, de probabilidade de NA, sendo NA o evento não ser assassinado. Seguindo o raciocínio, a probabilidade de ser assassinado é 1 − P(NA) = t, portanto; quando t = 25/100.000, P(NA) = 1 − 25/100.000 = 99,975%.

Vladimir usou essa porcentagem para simular uma cidade no computador. “Gerava pessoas nessa cidade fictícia muitas vezes. Considerei uma expectativa de vida de 70 anos, e aí contei quantas pessoas nasciam e morriam sem que fossem assassinadas.” Como a maioria das pessoas morre por outros motivos, que não o homicídio, Vladimir não estava preocupado com esse cenário; passou a contar quantas viviam a vida inteira normalmente até que alguém da cidade fosse assassinado. “Às vezes, rodava o programa e a primeira pessoa da cidade fictícia era assassinada; mas isso era raríssimo. Às vezes, rodava o programa e só depois de gerar mil pessoas, uma era assassinada.” Tudo isso ocorria de forma aleatória, isto é, o assassínio ocorria por sorteio.

Ele notou que, apesar dos cenários variados, em média, gerava 57 pessoas antes de obter um homicídio. Ou seja, na simulação, a cada 57 brasileiros que vivem por 70 anos, um é assassinado. Ora, é muito fácil ter 57 conhecidos. “Se um em cada 57 brasileiros vai morrer assassinado, é bem provável que isso acontecerá perto de mim”, diz Vladimir. “Pode ser que eu perca um familiar, ou que eu mesmo seja assassinado.”

Após fazer as simulações, Vladimir ligou correndo para Luiz Eduardo. Animado com a novidade, Luiz sugeriu que agora o mais difícil seria mapear quantos conhecidos uma pessoa tem. Ou quantos familiares, contando a família com todos os primos, tios, sobrinhos… E Vladimir achou uma hipótese dos anos 1990 que se encaixava certinho com o que encontrou nas simulações.

O número de Dunbar

Em 1993, Robin Dunbar, antropólogo numa universidade de Londres, na Inglaterra, publicou um artigo no qual dizia que uma pessoa consegue se relacionar com no máximo 150 pessoas. (Na verdade, ele estava atrás de explicações para o cérebro grande dos primatas, e acabou chegando a esse número de 150 pessoas no círculo mais próximo de qualquer pessoa.) O “número de Dunbar” passou a significar o número de pessoas com as quais alguém pode manter relações mais próximas, com direitos e deveres, e nas quais pode confiar. É um número alto: na maioria das espécies, o número de indivíduos mais próximos é pequeno; em algumas, é um par de indivíduos.

A partir dessa ideia e das simulações, Vladimir viu que, ao longo da vida de um brasileiro com 150 “amigos” (ou familiares, no sentido de gente que faz parte do cotidiano), provavelmente receberá a notícia de que dois deles foram assassinados — ou mesmo três. “O número exato é 2,59”, diz Vladimir. “Mas acho melhor arredondar para três, pois nem todo mundo lida bem com meia pessoa!”

Em geral, diz Vladimir, as pessoas acham que a deusa Fortuna lhes deve favores. Se dois primos foram assassinados num assalto à mão armada (uma tragédia para a família inteira), então ninguém mais daquela família será assassinado. Isso não existe. Aliás, em certos grupos sociais, ou em certos lugares, a probabilidade de assassínio é ainda maior que no resto da população.

Vladimir chamou de e a expectativa de vida na população, que definiu como 70 anos. Assim, calculou a probabilidade de a pessoa não ser assassinada ao longo de sua vida: (1 − t)70. Quando t = 25/100.000, essa probabilidade vale ≈98,27%. “A chance de jamais ser assassinado durante toda a vida ainda é alta”, diz Vladimir. O contrário funciona assim: a chance de ser assassinado é de 1 − (1 − t)70. O que, com os números de Vladimir, dá ≈1,73%. Com tal número, as simulações mostram que todo brasileiro, ao longo da vida, deve se preparar para receber três vezes a notícia de que um de seus familiares foi assassinado.

Para Vladimir, mais importante que divulgar números exatos é divulgar números de um jeito que todo brasileiro possa compreender. Só assim o cidadão pode cobrar as autoridades — e só assim pode elogiá-las quando os resultados são bons.

O emprego dos sonhos

Segundo o IBGE, o brasileiro adulto tem, em média, 1,86 filho. O instituto chama esse número de taxa de fecundidade. Porém, ela varia bastante de cidade para cidade, ou de estado para estado. Em cidades menores, por exemplo, as famílias tendem a ser maiores. Vladimir usou a taxa de fecundidade do brasileiro para pensar no tamanho da família brasileira, levando em conta três gerações.

Ele chama esse grupo de pessoas de família estendida, no qual o casal de referência tem como família seus filhos e netos. Assim usou uma função de terceiro grau para expressar o tamanho da família brasileira usando como variável a taxa de fecundidade.

Depois de analisar também a taxa de cada estado, Vladimir viu que 30 seria um bom número para representar o tamanho típico da família brasileira estendida, e o usou para realizar uma pesquisa via internet. Num formulário, o internauta lê uma ótima proposta de emprego, mas terá de se mudar com a família estendida para outra cidade. A empresa fictícia oferece três opções, mas o internauta deve escolher a cidade na qual não gostaria de morar de jeito nenhum.

• Na cidade A, a taxa anual de assassinatos é de 64 por 100.000 habitantes.

• Na cidade B, é de 25 por 100.000 habitantes.

• Na cidade C, ao longo da vida de cada um de seus moradores, estima-se que um de seus familiares acabe sendo assassinado. (Entre avós, pais, filhos, netos, irmãos, tios, e sobrinhos.)

Ao passar o olho nas opções, o internauta notava que a cidade B é mais segura que a A; então, tinha de eliminar ou a cidade A ou a C. Vladimir diz que 77% dos internautas eliminaram a cidade C, sem saber que o número da cidade A e o da C é o mesmo. “Quando digo que morrem 64 pessoas a cada 100.000 habitantes, não causo tanto efeito. Isso mostra que a maneira de apresentar uma estatística, ou de interpretá-la, muda o modo como a pessoa toma decisões.”

No website que mantém sobre o assunto [http://violencia.click], Vladimir planeja acrescentar um recurso: o internauta poderá dizer onde mora e o tamanho de sua família, ou o número de conhecidos, para então saber a probabilidade de que, ao longo da vida, receba a notícia de que alguém próximo morreu assassinado.

No Reino Unido, informa Vladimir no website, a probabilidade de que uma pessoa próxima seja assassinada é praticamente zero.

 

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